Processo de consulta pública
Código da proposta: 5479
O mapa de áreas críticas do caderno mostra que o risco de inundação mais alto recai sobre a faixa mais vulnerável do centro (Campos Elíseos, Luz, Glicério). Peço prioridade a essa faixa e que a infraestrutura verde seja dimensionada e comparada ao concreto, não citada de passagem.
Acompanho a drenagem do centro como cidadão, não como engenheiro. Para isto li o caderno do córrego Anhangabaú, já publicado, que parece servir de modelo para esta série. A consulta pede a percepção dos problemas locais e os pontos que os dados oficiais nem sempre mostram. Começo pelo que está no próprio caderno: sobre quem recai o risco mais alto.
O mapa de áreas críticas cruza a mancha de inundação com a vulnerabilidade social, pelo IPVS. O risco mais alto recai sobre a faixa que vai dos Campos Elíseos à Luz e ao Glicério. É onde se concentra o cortiço do centro: um estudo do Laboratório de Habitação da FAU-USP (Censos 2010 e 2022) localiza essa concentração na Luz, no Glicério e no Brás, com população majoritariamente negra e parda e muitos migrantes. É também a faixa que menos aparece no noticiário: o que vira notícia são as avenidas e o comércio, não as ruas onde essa gente mora. Risco alto e baixa visibilidade pública no mesmo lugar. Peço que a priorização das etapas pese essa faixa de forma explícita.
A pergunta seguinte é o que se oferece a ela. Pelo que o caderno propõe, é em grande parte reservatório de concreto enterrado, dimensionado para a chuva de cem anos — obra que protege contra o evento grande e não devolve nada, no resto do ano, a quem mora ali. É aqui que entra a infraestrutura verde: nesses lugares ela faz um segundo trabalho que o concreto não faz. Infiltra, dá sombra, e deixa um chão utilizável onde hoje há asfalto.
O caderno reconhece a infraestrutura verde: prevê praça de infiltração, abertura de córrego, controle na fonte, e nomeia a origem do problema, o PROVAC, que em 1987 fez o córrego virar avenida. Mas ele a subdimensiona. No Anhangabaú, a única praça de infiltração tem quatro mil metros cúbicos; os reservatórios da primeira alternativa somam cerca de duzentos e quarenta mil. O verde fica na ordem de dois por cento do volume reservado. E as duas alternativas oferecidas não comparam verde com concreto: comparam duas estratégias de concreto entre si.
Há uma razão técnica para insistir. O caderno mostra que a bacia já está impermeabilizada no limite legal — taxa atual e máxima permitida coincidem em oitenta e dois por cento, e a maioria das sub-bacias já passou disso. A lei não vai devolver solo permeável ao centro; se alguém tem de recuperar infiltração, é a obra pública. A literatura sobre estes córregos diz o mesmo há tempo (referências no anexo).
Uma ressalva, para não ser mal entendido: a infraestrutura verde não substitui as estruturas para a chuva de cem anos, e o caderno deve mesmo mirar esse evento grande. O verde resolve a chuva frequente, a que alaga o centro várias vezes por ano. Não peço troca; peço que ele deixe de ser guarnição e entre como parte da espinha, dimensionado e custeado.
Para tornar isso prático, peço quatro coisas ancoradas no que o caderno do Anhangabaú já mapeia.
Primeiro, que a primeira etapa de obras priorize a faixa Campos Elíseos–Santa Cecília–Luz–Glicério, onde o mapa localiza o risco mais alto. Hoje ela segue a mancha de inundação visível; peço que siga também o cruzamento com a vulnerabilidade social que o caderno já calcula.
Segundo, que nos reservatórios previstos sob praças — Bandeira, Quatorze Bis, Parque Dom Pedro II — se estude a praça de água à superfície no lugar do reservatório enterrado, que retém a chuva e devolve o espaço público. Onde a cota não permitir, que o caderno registre por quê.
Terceiro, que a praça de infiltração deixe de ser uma só: avaliar uma rede de praças e canteiros pluviais distribuídos pela faixa de maior risco, somada ao cômputo e não tratada como acessório.
Quarto, que o caderno apresente, para ao menos um trecho, a comparação de custo e desempenho entre o concreto e a solução verde equivalente — o número que hoje não existe e sem o qual a opção pelo concreto fica sem contraprova. Roterdã, Bishan e a cidade-esponja chinesa oferecem parâmetro.
Reconheço o trabalho técnico do caderno e espero que a versão final trate a prioridade social e a infraestrutura verde com o peso que o diagnóstico já sugere. Obrigado pela leitura.